Em terras tupiniquins, após 1541, teve contato com dois pontos cosmopolitas. Primeiro, Cananeia, onde havia uma colônia que recebia embarcações de várias bandeiras. Depois, em Santa Catarina, pouso de uma colônia de náufragos e de índios. Essa colônia também atendia navios e nela co-existiam pacificamente índios, portugueses, degredados, náufragos, espanhóis, 'mas hoje não sabemos direito qual era tamanho dessa colônia', diz Markun. Neste lugar, Cabeza 'teve contato com um índio aculturado chamado Miguel do Brasil, que falava castelhano e guarani; ele foi uma ponte entre o espanhol e os índios'.
Cabeza batiza o território catarinense de Província de Vera, em homenagem ao avô. Foi governador de Santa Catarina pela Espanha, mas não sobrou nada de registro oficial, além de suas memórias. 'Há uma ilha em Floripa chamada Ratones, e dizem que foi o Cabeza de Vaca que nomeou. Ele descreve a baía de Ramos, o estreito da ilha com o continente, mas não há registro histórico disso'. Há uma discussão sobre se um barco naufragado no litoral catarinense seria da frota dele ou não. Um espanhol governando no Brasil? No século XVI, Santa Catarina era portuguesa para os portugueses, e espanhola para os espanhóis, dada a impossiblidade técnica, à época, de determinar o meridiano de Tordesilhas. O espanhol governou por oito meses e deixou em torno de cem homens por aqui.
O náufrago que ninguém comeu
Cabeza passou por naufrágios, privações, atuou como curandeiro, liderou legiões de índios. Em certo episódio, naufragou entre Estados Unidos e México. Terminou em um lugar, apelidado por eles, de Ilha do Mal Fado. Cabeza conta, nas Memórias, que ali um grupo de náufragos passou por uma fome tão grande que os levou a comer uns aos outros — sobrou só um, porque não havia ninguém para comê-lo. Cabeza e os seus companheiros 'viviam nus, pois foram perdendo as roupas, e passaram uma fome extrema, comiam cactos'. Após algum tempo de viagem, o conquistador entrou em contato com índios e curou um deles de alguma doença. 'Rezaram um Pai Nosso, um Ave Maria, fizeram o sinal da cruz e um índio ficou bom. A partir desse momento ele passou a ser seguido por uma legião de índios e ia de tribo em tribo para saqueá-las'. Dessa forma, ele e outros três sobreviventes caminharam 18 mil quilômetros pelo que hoje são os estados do Texas, Novo México e Arizona, como índios, nus. 'Quando escontrou novamente os espanhóis, ele estava numa situação tão incrível que ninguém o reconheceu, barbado e nu'.
O parecerista e o editor
'O parecerista destruiu, acabou com o livro e eu tive dificuldade de aguentar a paulada, mas depois de ler algumas vezes passei a dar razão a ele. A base da crítica do parecerista é que a história se perdia no meio do caminho. Ao tentar passar para o leitor a quantidade de fatos e personagens imensos, eu produzi um negócio que não era nem livro de aventura nem um tratado histórico. Então eu tive que desconstruir tudo aquilo que eu tinha feito para deixar o sumo no livro e perseguir a história do Cabeza de Vaca a partir da perspectiva dele sem tentar tomar partido. Ele não é herói nem vilão, é um personagem cheio de nuances'.
As reações ao livro agradam: 'Eu já tive reações diversas ao livro, como: ‘Ah, esse cara é um bandido’ e outro ‘Poxa, esse cara era bom mesmo’, então eu acho que eu consegui esse intento de fazer com que a história não seja minha, mas de quem lê. Eu agradeci ao parecerista no fim do livro. É sempre difícil você encarar a crítica ao teu trabalho, ainda mais quando ainda não foi publicado. O trabalho do escritor ganha quando há um bom editor. Isso funciona mais para não-ficção do que para ficção. Acho que essa contenda sobre a história é sempre um bom recurso, embora seja necessário humildade para receber'.
Internet, Recepção do livro, Crepúsculo e Dan Brown
A internet oferece espaço para a discussão e para perceber a recepção do livro: 'Uma crítica que eu achei sensacional foi: ‘eu gostei do livro Cabeza de Vaca, parece o filme Avatar’. Eu disse: ‘estamos bem na foto’. É disso que o nosso trabalho vive, da satisfação ou insatisfação do leitor, da possibilidade de crítica'. Todo autor gosta disso [do contato com seus leitores]. Escrever um livro é sempre um trabalho solitário e de insegurança, na medida em que você quer saber se a história convenceu ou se a tua literatura entusiasmou ou sensibilizou o leitor'.
Em qual setor da livraria poderíamos colocar Cabeza de Vaca? 'Na frente, ao lado de Crepúsculo e Dan Brown!', ri. 'É biografia, indiscutivelmente, mas ele é também a coisa de acompanhar a trajetória da personagem com o ritmo e ordem cronológica de filme. Não é à toa que eu estou fazendo agora um roteiro cinematográfico baseado no livro. É absolutamente fascinante a vida de Cabeza, e não dava pra contar isso com muito rigor em determinados trechos'.







