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quarta-feira, 24 de março de 2010

"Hoje, estou acima do bem e do mal"


Em seus quase 90 anos de idade, uma das maiores atrizes brasileiras ganhou fotobiografia editada pela Imprensa Oficial de São Paulo

Tônia Carrero, Movida Pela Paixão (Imprensa Oficial de São Paulo, 2009): com esse título que traduz a essência de uma trajetória, foi lançada no Rio de Janeiro a fotobiografia da atriz Maria Antonieta Portocarrero Thedim, ou simplesmente Tônia, musa das praias cariocas, umas das mais célebres e belas personagens da dramaturgia brasileira. Consagrada por uma sólida carreira de sucessos no teatro, cinema e televisão desde os anos 1940, Mariinha (como era chamada por sua família e amigos próximos) passou por cima dos estereótipos da beleza e da fama e, hoje, ancorada pela experiência de seus 87 anos, diz: 'não disfarço mais nada. Não quero que me achem linda ou brilhante. Hoje estou acima do bem e do mal'.

A fotobiografia, de autoria da jornalista Tania Carvalho, é recheada de citações de entrevistas de Tônia e também de depoimentos de grande personalidades sobre a musa. Entre os admiradores estão, além de Carlos Artur Thiré, Paulo Autran, amigo da vida inteira, falecido em outubro de 2007, a quem Tônia dedica o livro; Aníbal Machado, Paulo Mendes Campos, Guilherme Figueiredo, Fernando de Barros, Ronaldo Bôscoli, José Carlos de Oliveira e Carlos Drummond de Andrade. O poeta mineiro comenta uma alegria e perfila a atriz:

'Chuvinha cinza-chata, dessas que sujam a manhã, mas ao abrir o jornal vejo sair dele um senhor raio de sol, que retifica a paisagem: nasceu uma menina. A menina é neta de Tônia Carrero. Tônia cada vez mais linda, mais artista, a ponto de obrigar a gente a não perder capítulo de novela de televisão, e a confessar que não perde'. (...)

Tônia, em cena do filme Chega de Saudade(2008)


Na inauguração da Sala Tônia Carrero, em janeiro de 2007, no Rio, Carlos Artur Thiré apresentou um texto em que explicava como é que uma pessoa pode virar teatro. Uma receita. 'Para um dia virar teatro, você tem que, antes de mais nada, nascer a única filha mulher de uma família de militares: seu pai tem que ser militar, seus irmãos, todo mundo da família, menos você! Pelo contrário, você tem que ficar ali, quietinha, sem quase abrir a boca, e quando fizer 17 anos, virar uma mulher deslumbrantemente linda, e pimba, contra tudo e contra todos, casar com um artista e sair de casa deixando todo mundo de boca aberta. Levando com você, dali, só o apelido que vai te acompanhar a vida inteira em família: 'Mariinha''. Segue a isso o percurso de esforço, prêmios, peças, novelas, todo um caminho que acompanheremos na segunda parte dessa matéria.

Tania tem a sensibilidade de captar não apenas os momentos mais importantes na carreira da atriz, mas aquelas histórias singelas, guardadas no baú da memória, que marcaram sua trajetória. A dureza da mãe, os passeios com o pai, o carinho dos irmãos, a vida de casada, de separada, as traições, os amores, as viagens, o grande amor pelo filho Cecil Thiré (ator, com biografia também traçada pela jornalista), sua relação com os homens, com o sucesso e a beleza. Esta última aparece em seu relato de forma marcante. Uma citação diz: 'beleza é poder, sexualidade é poder. Já senti esse poder bem firme nas minhas mãos e me dei mal com ele. Usei esse poder contra mim. Podia ter orientado minha vida mais seriamente se tivesse tirado a venda desse pequeno poder'.

Hoje, aos 87 anos, a atriz diz ter superado o 'trauma' com o espelho, tendo sido difícil aceitar que, agora, não tinha mais o corpo desejável de antigamente. No palco, porém, diz que rejuvenesce, pode viver uma mulher vinte anos mais jovem. A melhor coisa da idade, diz, é a liberdade de ação: 'Digo o que bem entendo, e não tenho medo'.

Cecil Thiré, no programa de A Visita da Velha Senhora (2002), diz: 'Cada etapa da vida é marcada por uma idade que varia de pessoa para pessoa. A infância pode se prolongar, a meia-idade pode vir mais cedo, etc. O que mais me admira ao observar a minha mãe ao longo da minha vida (já não tão curta; 60, ano que vem) é o ímpeto jovial (...). Alegre, generosa, sem nenhum tipo de temor diante da vida, assim a vi passar da jovem quase ingênua entrando na maturidade lenta e gradualmente e mantendo-se neste processo de amadurecimento enquanto os aniversários teimam em dizer a ela que esmoreça, abrande o ãnimo, diminua seu fogo, acomode-se e se recolha mediante o avanço da idade. Qual o quê!'.

Receita para Virar Teatro

Os sucessos da atriz começam no Teatro Brasileiro de Comédia, o TBC, local onde também estiveram nomes como Nydia Licia, Sérgio Cardoso, Walmor Chagas, Cacilda Becker e o saudoso Autran. Com ele, Tônia interpretou sua primeira peça: Um Deus Dormiu Lá em Casa, sob a direção de Silveira Sampaio. Antes disso, já casada com o artista plástico Carlos Thiré, protagonizou o filme Querida Suzana, pela Vera Cruz, Companhia Cinematográfica, da qual foi estrela.

Junto ao segundo marido, o italiano Adolfo Celi, e Paulo Autran, Tônia formou a Companhia Celi- Autran-Carrero, que entre clássicos de Shakespeare (Otelo) e Peças de Vanguarda, como Entre Quatro Paredes (Huis Clos), de Jean-Paul Sartre e Frankel, de Antonio Callado, fez parte da geração que revolucionou a cena teatral brasileira. Temos a sensação de um transporte automático ao início da década de 50, em meio das peças dirigidas por Ziembinski, com os papéis de sucesso vividos pela atriz em Se Não Chover, de Henrique Pongetti e Cândida, de Bernard Shaw.

Em 1960, Tônia recebeu o Prêmio Governador do Estado de São Paulo de melhor atriz por Seis Personagens à Procura de Um Autor, de Pirandello. Já em 1965, cria a Companhia Tônia Carrero. Nessa mesma década, a atriz interpreta personagens de peso, como Neusa Suely, da peça Navalha na Carne, de Plínio Marcos, e ganha o Prêmio Molière e Associação de Críticos Cariocas.


Tônia, em Pigmalião 70. O corte de cabelo da personagem foi moda na época (daqui)


Entre inúmeros outros trabalhos no teatro, destacam-se em sua carreira Macbeth, de Shakespeare, novamente em companhia de Autran, Casa de Bonecas, de Ibsen, sob a direção de seu filho Cecil, Doce Pássaro da Juventude, de Tennessee Williams. Sob a direção de Antunes Filho, fez Marta de Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?, de Edward Albee. Voltou a contracenar com Autran em A Amante Inglesa, de Marguerite Duras.

Na televisão, Tônia interpretou papeis igualmente marcantes, como na novela Pigmalião 70 (acima), em que o corte de seus cabelos foi modelo a nove entre dez mulheres brasileiras, recebendo, por homenagem, o nome de Pigmalião.

Hoje, moradora do Rio de Janeiro, cidade que também guarda suas memórias, Tônia recebe de seu público a homenagem que muitos artistas brasileiros deixaram de receber. O reconhecimento por seu mais de meio século de trajetória foi expresso em alto nível, de acordo com o brilho e a importância de sua carreira. Pagamos uma dívida com essa grande atriz, na espera de que outros nomes do teatro, cinema e televisão brasileiros também recebam a justa homenagem e atenção merecidas.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Entre le Murs

Entre os muros da Escola e da Rotina


Dias após o deadline, não tenho o texto feito, não pensei sobre a matéria sobre Entre os Muros da Escola, livro de François Begaudau, que já deveria estar pronta . Levo bronca. Preciso descansar, não tenho tempo para nada. Lamento-me. Entre estudo, estágio, trabalho, ocupo em torno de 17 a 18 horas do meu dia. Tudo cronometrado, ensaiado, sem atrasos, sem queixas. Esse é o meu dia-a-dia, esse é a rotina do professorado, que, como eu, pobres!, não podem reclamar – quer dizer, poder pode, mas e aí? Começo a pensar sobre o que devo escrever, como devo começar, o que é importante ser ressaltado. Os pensamentos vão e vem em lembranças que passam pelo orgulho do que faço, do esforço diário, da conversa com as profissionais do ensino que não querem continuar na escola (das três com quem trabalho, duas declaradamente querem muito sair dali, daquelas famosas quatro paredes das salas de aula). Pergunto-me por quê. Além disso, procuro não misturar a minha vida com o delicioso relato de Begaudau. É duro não fazer um mix dessas realidades a mim tão parecidas.


Dia desses, resolvi comprar o Entre os Muros da Escola, visão desse professor francês sobre tudo o que vê e sente na rotina de seu trabalho. Narrativa quase em formato de relatório, temperado com singela ironia nas entrelinhas, mas sem vangloriar ou diminuir o papel de ninguém, nem o seu próprio. A leitura fez ressoar as 18 horas do meu dia em que passo acordada antes de cair como pedra na cama. A vontade de não ir ao trabalho, a descrença no aluno, o preconceito de classe e origem, o racismo, a falta de estímulo geral, a falta de razão, a falta de contexto. A falta. O que não falta é a vontade mútua de sumir dali... de mudar, não sabendo bem pra onde.

Pra quê aprender francês? Perguntam lá, pra que aprender português? Perguntam aqui. Foi difícil ler sem pôr um quadro em cima do outro, como num filme em que somos protagonistas. Às vezes não sabia se me recordava do livro ou do meu trabalho na escola da esquina de casa.

Na França de Begaudau, o liceu da periferia é formado por imigrantes, filhos de imigrantes e por aqueles que, por não ter condições de sair dali, ficaram. O professor entra em sala de aula já com a tensão de propôr algo que, anyway, não fará sentido ao aluno, por mais que seja explicado que sim, faz. Faz, você entendeu?

O cabo de guerra está sempre esticado, e a luta está mais em mostrar quem tem a força ali, do que construir o conhecimento (jargão tão utilizado e tão banalizado, não é?). Nas redações pedidas por Begaudau, o aluno negro filho de imigrantes escreve que não é visto como um igual naquele lugar onde sua condição lhe é jogada na cara, crua como um tapa. O professor diz “deixem que eles fiquem nesse bairro sujo para sempre”. A corda está sempre esticada. Aqui, um aluno também negro, também filho de imigrantes, reclama de sua vida, por apanhar, por não ser compreendido. Quem lhe escuta? Eu? Você? A escola? Docentes riem na sala dos professores.



Às vezes, aqui e lá, eles são escutados. Depende do professor...

E esse então é igualzinho, oh Deus, aqui e lá. Chegam à famigerada sala docente desolados, nervosos. Um com o cabelo em pé, outro, olheiras no queixo, outro, o nó na garganta. Outro quieto, cansou de reclamar. Em São Paulo, professor não tem vez, dizem. Tira o Fulano do poder que se ajeita, dizem. Como parte da classe, sou propensa a concordar com as queixas, mas preciso pensar antes numa racional, cartesiana diria, reflexão sobre o assunto. Desisti, queria comer um pão e deitar. Que preguiça, meu Deus, que coisa, não quero voltar, não quero encarar. Receio, medo, raiva, angústia, riso, escárnio, vontade. Begaudau me entendeu. Quando o professor vai parar de queixar-se? E quando o poder público reconhecerá o trabalho árduo da classe? E quando o professor vai parar de dizer que não é psicólogo? E quando os problemas da vida batem na porta da sala? Sou eu ou o livro... Acho que já estou a misturar as coisas por aqui.

Idealista, dizem. Entro na sala pensando em como posso parar o funk do aluno da 6°B.

Begaudau narra a reunião dos professores no fim do semestre. Lá não tem progressão continuada, pensei. Duas alunas fazem parte do grupo, são as representantes de classe. Ah, só podia ser livro francês... Onde já se viu isso aqui? Elas, alunas, riem, tossem, quase vomitam de gargalhar, saem. Afinal, não é tão diferente. Tem aluno que acerta o sorvete na nuca, disse uma antiga colega. Preciso pensar por qual motivo, naquele momento pontual, veja bem, as adolescentes precisam entender o que aquela reunião significa, o que a nota e a aula de francês significam.

Responsabilidade se cria de cedo, e educação vem do berço, dizem. Mas e se não veio, o que fazer?

Paquidérmicos, os alunos ouvem o texto de um livro didático aqui. Ressonantes, conjugam o passado composto lá. A graça da aula se dá no momento da discussão ou da briga. A luz vêm ao olho, e com isso a fala nada burra de quem sabe muito, mas que nós, professores ainda não encontramos definitivamente a forma de fazer como saibam mais, como aprimorar nosso trabalho. Lá e aqui, surpreendemo-nos com a capacidade dos alunos, com sua perspicácia e inteligência. Ao mesmo tempo, queremos que eles aprendam ao nosso modo, tradicional, correto e tranquilo. Não são animais, ora, nem tudo é oba-oba na vida!

Falando em oba-oba, o que é a roupa daquela menina de 14 anos que mostra o umbigo e os seios apertados na blusa aqui? O que é a moça de 15 anos que usa roupas espalhafatosas e brincos de 10 centímetros lá? Por que implicamos? Por que ressaltamos isso? A escola é o lugar da privação de desejos, do corpo, da fala. Begaudau olhou para tudo isso e para todos argutamente, mas sua narrativa mostrou mais de si mesmo, assim como esse texto acabará mostrando mais de mim. A angústia, as felicidades e desgraças desse francês não foram milagrosamente acertadas no fim como em um filme de Morgan Freeman. Como eu, ele não tem respostas, não mostra e não pretende responder nada. Não se sabe se, um dia, pensará em dar cabo às situações que narrou, não é o que importa.

São 11:15h da noite, e fecho o livro de capa azul. Afinal, depois de dois dias não lembro se o que pensei são histórias minhas ou do François. São tantas as semelhanças, são tão poucas as diferenças. A França não é tão longe assim afinal, não para o professor. Ficou um sentimento engraçado de irmandade, de uma dúvida sempre suspensa no ar, à espera de uma resposta, à espera que o cansaço e o enfado não venham antes do trabalho. O jogo de futebol, que nós é caro, fecha a narrativa de forma tão íntima... A identificação foi de fato total.